8 de junho de 2026

Crazyland: o rock autoral que transforma amizade, resistência e estrada em identidade própria



Banda paulistana fala sobre origens, evolução sonora, cena independente e os desafios do rock brasileiro em entrevista exclusiva ao PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER.

Entre riffs intensos, letras autorais e uma trajetória construída na estrada do underground paulista, a banda Crazyland segue consolidando seu espaço na cena independente nacional. Em entrevista exclusiva ao blog *PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER*, o vocalista Sandrão relembrou a formação do grupo, falou sobre o amadurecimento artístico da banda, o impacto do álbum “Brasil”e os planos para 2026, em meio a um momento delicado marcado pela perda do produtor Michel Kuaker.

Com forte atuação no circuito independente, a Crazyland vem se destacando por unir rock and roll, peso, atmosfera e identidade autoral em apresentações que já dividiram palco com nomes importantes do cenário nacional, como Garotos Podres, Black Pantera e Golpe de Estado.

Das reuniões entre amigos ao nascimento da Crazyland.

Segundo Sandrão, a Crazyland surgiu de encontros despretensiosos entre amigos na casa do guitarrista Kike Damaceno. O que começou entre churrascos, cervejas e covers acabou evoluindo para uma banda autoral com identidade própria.

“A Crazyland começa de uma brincadeira de amigos. Nos reuníamos na casa do Kike Damaceno para assar uma carne, tomar umas geladas e fazer música. Desses encontros surgiu o embrião da banda.”

O vocalista também destacou que a banda passou por diversas formações até chegar ao atual line-up, considerado por ele o mais entrosado da trajetória do grupo.



Hoje, a formação conta com Sandrão nos vocais, Kike Damaceno na guitarra, Professor Góes na bateria e Ale Feliciano no baixo.

Influências clássicas e evolução natural do som.

A relação de Sandrão com o rock começou ainda na infância, influenciado principalmente pelo pai, fã de The Beatles e Electric Light Orchestra.

“A primeira lembrança que tenho de rock foi da banda Electric Light Orchestra. Eles têm uma música chamada ‘Tightrope’. Eu chamava de ‘a música do barulhão’.”

Ao longo dos anos, a Crazyland passou por transformações naturais, incorporando novas referências e tornando o som mais pesado e direto.

“Hoje estamos muito mais rock n roll. Muito mais pesados. Foi uma evolução natural oriunda das mudanças de formação.”

Mesmo mantendo o rock como essência principal, a banda destaca que o processo criativo coletivo permite diferentes influências musicais dentro das composições.




O impacto do Showlivre e da cena independente

A transição definitiva para o trabalho autoral aconteceu durante a pandemia, período em que os integrantes começaram a produzir músicas remotamente. A primeira apresentação oficial da Crazyland como banda autoral aconteceu em grande estilo no programa Showlivre, com apoio de Clemente Nascimento, vocalista das bandas Inocentes e Plebe Rude.

“Nossa primeira apresentação como banda autoral acabou sendo em grande estilo no programa Showlivre do nosso grande padrinho Clemente dos Inocentes.”

A experiência ampliou significativamente o alcance da banda e fortaleceu sua presença no circuito underground.

Para Sandrão, tocar ao vivo continua sendo a principal ferramenta de crescimento de uma banda independente.

“Estar na estrada tocando é como plantamos a semente da nossa música. Toda banda precisa sair do estúdio e ir para a rua.”

“Brasil”: o álbum que consolidou a Crazyland

Lançado em 2023, o álbum *Brasil* marcou um importante passo na trajetória da banda. O trabalho trouxe músicas como “Gravidade”, “Transformar”, “Rip” e “Amor de Quarentena”, consolidando o nome da Crazyland dentro do rock independente nacional.

“O primeiro filho sempre é muito importante. Resultado de um intenso trabalho. Foi uma grande satisfação colocá-lo no mercado.”

Segundo a banda, o disco teve boa repercussão em rádios como Kiss FM e Rádio Gazeta, além de fortalecer a turnê que veio na sequência.







Novos singles, perdas e reconstrução

Atualmente, a Crazyland trabalha na produção do segundo álbum, embora o processo tenha sido impactado pela morte do produtor Michel Kuaker, ocorrida em abril deste ano.

“Foi um grande baque para a banda. Ele sempre foi muito importante nesse processo.”

Mesmo diante da perda, a banda segue lançando novos singles, entre eles “Amor Bom”, com participação da cantora Claudiah, “Me Esqueceu, Tanto Faz” — releitura inspirada no clássico “In the Still of the Night”, do grupo The Five Satins — e “El Salvador”, faixa marcada por atmosferas psicodélicas e influências pós-punk.

Além dessas músicas, a banda também lançou recentemente o single “Nada Vai Fazer Você Mudar”.

“Estamos no processo de adequação para esse novo cenário com essa tragédia que atingiu a banda. Mas continuamos.”

Rock brasileiro, renovação e diversidade

Durante a entrevista, Sandrão também refletiu sobre os desafios atuais do rock brasileiro. Para ele, o gênero perdeu espaço no mainstream e precisa voltar a dialogar com as novas gerações.

“O rock precisa voltar a se comunicar com a juventude.”

A banda também destacou a importância da ampliação da diversidade dentro da cena, reconhecendo o crescimento da participação feminina e LGBTQIA+ no rock contemporâneo.

“Esse trabalho é essencial para que o rock continue relevante. Tem que ir abrindo espaço. Quebrando esse muro tijolo por tijolo.”




União do underground e planos para 2026

A Crazyland reforçou ainda a importância das colaborações entre bandas independentes, defendendo uma cena mais unida e colaborativa.

“As bandas só ficarão vivas se estiverem juntas e trabalharem remando para o mesmo lado.”

A banda participa ativamente de associações ligadas ao fortalecimento do rock independente, como ACC, ACR e ABMIN, além de planejar novas parcerias para os próximos lançamentos.

Para 2026, o principal objetivo é ampliar a circulação pelo Brasil.

“Daqui a cinco anos quero apenas continuar fazendo rock n roll. O resto será consequência.”

Ao encerrar a entrevista, Sandrão deixou um recado direto aos fãs e leitores do PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER*:

“Continuem prestigiando a música autoral. E aguardem. Temos muitas novidades para 2026.”




*Por Johann Peer

Jornalista — MTB 65.158/SP

Vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS




25 de maio de 2026

Eric Galdyanz: A VOZ do Mestre e o tempo como aliado: a resistência vocal e artística no novo capítulo do Atakhama




Com mais de quatro décadas dedicadas ao heavy metal, o vocalista, vocal coach e artista Eric Galdyanz segue ativo e reflexivo diante dos desafios da música contemporânea. À frente da banda Atakhama, ele apresenta o álbum “Time” como um manifesto de perseverança, autenticidade e maturidade artística, reafirmando sua trajetória que atravessa continentes, estilos e gerações.

A história de Eric Galdyanz se confunde com a própria evolução do heavy metal na América Latina. Iniciada ainda nos anos 1980, sua formação musical foi profundamente influenciada pelo ambiente familiar e por referências clássicas do gênero. “A música está no sangue, meu pai foi um grande violinista, e cresci rodeado de músicos feras”, relembra. Ainda jovem, já interpretava clássicos de bandas como Judas Priest, Scorpions, Uriah Heep e Deep Purple, moldando uma identidade vocal que carrega até hoje.

Ao longo de sua trajetória, Eric passou por diversas bandas, acumulando experiências que definiram seu perfil artístico. “Disciplina, perseverança e identidade são valores que mantenho até hoje”, afirma, ao relembrar sua passagem por projetos como Cizania, Detroit, Arqueus e Crosskill.

Sua carreira ganhou novos contornos com a mudança para o Chile, onde integrou grupos importantes da cena local, como Alquimia e Cathalepsy. Foi nesse período que consolidou sua presença internacional e ampliou seu alcance artístico. “Alquimia impulsionou ainda mais minha carreira de volta no meu país”, destaca.

Paralelamente à atuação nos palcos, Eric também se firmou como vocal coach, contribuindo para a formação de novos talentos. A prática pedagógica, segundo ele, impacta diretamente sua performance: “É um constante crescimento. Nada forçado — naturalidade é a questão”.


No Atakhama, a diversidade cultural dos integrantes não é obstáculo, mas sim elemento agregador. O processo criativo segue uma dinâmica colaborativa, onde cada músico contribui com ideias que convergem para uma identidade comum: o heavy metal.

Apesar das raízes latino-americanas, Eric revela que sua conexão musical sempre esteve mais alinhada à tradição anglo-europeia. “Não existe nada nas minhas composições que se assemelhe com o mundo latino-americano”, afirma, com franqueza.

O single “Sema”, primeiro lançamento da banda, não atingiu o impacto esperado, algo que o vocalista atribui à falta de investimento e divulgação. Ainda assim, a banda seguiu em frente, consolidando sua proposta artística.

O álbum *“Time” surge como um trabalho profundamente pessoal. Mais do que um registro musical, o disco carrega marcas de superação. Durante o processo de gravação, Eric enfrentou sérias complicações de saúde após contrair COVID-19 duas vezes. “Fiquei de 8 a 9 meses abalado pelos problemas nos pulmões”, revela.

Mesmo com limitações físicas, ele seguiu com as gravações: “Entrei no estúdio com 50% das minhas capacidades”. O resultado, segundo ele, é honesto e direto, ainda que distante do ideal vocal que gostaria de ter alcançado.

O conceito do álbum gira em torno da resiliência: “Nunca desistir, acreditar e entender que o tempo determina a sua essência”. A proposta musical acompanha essa ideia, apostando na simplicidade e autenticidade, sem excessos técnicos ou produções artificiais.

Com olhar experiente, Eric não hesita em fazer críticas ao cenário atual do heavy metal. Para ele, há uma repetição excessiva de fórmulas e uma valorização equivocada de estilos vocais menos técnicos. “Quem grita em vez de cantar tenta esconder o que não consegue fazer”, dispara.

Ainda assim, mantém esperança no futuro do Atakhama: “Não desisto de pensar que talvez exista uma boa chance para esse projeto”.





Aos 60 anos e com mais de 40 anos de estrada, Eric Galdyanz segue fiel à sua essência artística e ao compromisso com a música. Seu conselho para novas gerações é direto: estudo, dedicação e respeito ao instrumento vocal são indispensáveis.

“Não tome a música como hobby. Seja honesto na mensagem que quer passar e tenha muito respeito com a sua voz”, conclui.

Em um cenário muitas vezes marcado pela efemeridade, Eric representa a resistência — um artista que entende o tempo não como inimigo, mas como elemento fundamental na construção de uma trajetória sólida e verdadeira dentro do heavy metal mundial.



Johann Peer é Jornalista responsável sob o número 65.158 MTB/SP e também vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.



ENTREVISTA COM MIDGARD

 

Entrevista com Paula Jabur da banda Midgard









31 de março de 2026

 

Emanno ROCKBRABO transforma vivência, poesia e atitude em combustível para uma nova fase do rock autoral

Entre memórias, intensidade emocional e identidade de Guarulhos, artista aposta no single “Amor e Rock n’ Roll” para consolidar seu nome na cena independente brasileira



Em meio a experiências pessoais profundas, referências marcantes do rock nacional e internacional e uma escrita moldada desde os tempos de escola, o artista e cantor Emanno ROCKBRABO vem construindo uma trajetória que une verdade, energia e identidade própria dentro da música autoral. Após ganhar atenção com a faixa “Rock And Roll no Apartamento”, o músico agora apresenta “Amor e Rock n’ Roll”, single que simboliza uma nova etapa de amadurecimento artístico, produção mais robusta e ampliação de sua presença na cena underground e independente.

A história de Emanno ROCKBRABO não nasce de uma estratégia de mercado, mas de uma ruptura emocional. Foi em um período atravessado por dor, luto e recomeço que a música deixou de ser apenas um refúgio íntimo para se tornar um projeto de vida.

Segundo o artista, o impulso definitivo para mergulhar na carreira surgiu em um dos momentos mais difíceis de sua vida.

Foi em um momento gigantesco de tristeza. Meu pai estava com câncer e eu tinha acabado de sair de um relacionamento, então, para preencher meu tempo, resolvi iniciar uma carreira musical”, relembra.

A partir desse ponto, a arte passou a ocupar um lugar central em sua caminhada, não apenas como expressão emocional, mas como construção de identidade, narrativa e propósito.

Embora tenha estreado oficialmente com o nome Emanno ROCKBRABO em janeiro de 2024, a relação do artista com a escrita vem de muito antes. Seus primeiros contatos com a criação surgiram ainda na escola, através da poesia — linguagem que, hoje, segue viva em suas composições.

Essa base literária acabou se tornando um dos pilares de sua assinatura musical, ajudando a moldar o tom confessional, imagético e direto que marca suas letras.

Um poema também é uma forma de arte. Desde a época da escola eu desenvolvi esse meu estilo de escrita que carrego nas minhas músicas. Com certeza houve evolução, mas o esqueleto do que é o compositor Emanno ROCKBRABO já estava presente desde essa época”, afirma.

Essa origem poética ajuda a explicar por que suas músicas soam tão próximas da experiência vivida: elas nascem da memória, do sentimento e da observação cotidiana.

Influenciado por nomes de peso como Raimundos, Mamonas Assassinas, Charlie Brown Jr., Freddie Mercury, Ozzy Osbourne e Elvis Presley, Emanno não esconde suas referências. Mas faz questão de deixar claro que sua proposta não é reproduzir fórmulas já consagradas, e sim traduzir essas inspirações em algo autoral e conectado ao seu tempo.

Tenho esses artistas como referência, mas procuro sempre colocar a minha identidade nas músicas. Meu som é contemporâneo e conta a história de um jovem guarulhense que se aventura no mundo do rock n’ roll”, destaca.

Essa declaração ajuda a definir bem o lugar que Emanno quer ocupar: o de um artista que dialoga com a tradição do rock, mas fala com linguagem, urgência e cenário de agora.

Mais do que criar canções, Emanno busca estabelecer conexão. Sua proposta artística passa pela irreverência, pela emoção, pela energia de palco e pelo retrato de experiências comuns a muitos jovens de sua geração.

Em vez de vender um personagem inalcançável, ele aposta na sinceridade como força criativa — e também como mensagem.

Seja você mesmo. Existem muitos jovens de Guarulhos que vão se identificar com o que escrevo, mas você não precisa ser igual a mim, viver as mesmas histórias. Seja você mesmo e vem curtir um rock n’ roll”, convida.

É justamente nessa combinação entre espontaneidade, vulnerabilidade e atitude que seu trabalho encontra identificação com o público.

Mesmo com pouco tempo de estrada sob o nome artístico atual, Emanno ROCKBRABO já acumula experiências importantes no circuito independente, incluindo apresentações em casas relevantes da cena underground e participação na 89 A Rádio Rock — um espaço simbólico para qualquer artista que deseja circular no universo do rock nacional.

Para ele, esse início de caminhada é resultado de uma soma entre oportunidade, geografia, contexto cultural e esforço pessoal.

Eu estou no lugar certo e na hora certa. São Paulo é um polo de cultura e a população está começando a pedir uma renovação no cenário do rock. Moro em Guarulhos, que fica perto da capital, e estou escrevendo rock, então isso ajudou bastante. Além disso, foram noites sem dormir e renúncia de alguns lazeres para investir na minha carreira”, relata.

O depoimento reforça uma percepção cada vez mais presente na cena: a de que o rock independente brasileiro segue vivo, mas exige entrega, persistência e construção diária de espaço.


Um dos momentos mais comentados dessa primeira fase da carreira veio com “Rock And Roll no Apartamento”, faixa que ajudou a ampliar o alcance do artista e a consolidar sua identidade entre humor, memória e narrativa cotidiana.

A música nasceu de uma situação real — como, aliás, boa parte de sua obra.

Minhas músicas são sobre histórias 100% reais que aconteceram comigo”, resume.

A autenticidade da canção parece ter sido justamente um dos fatores centrais para sua repercussão orgânica. Ao transformar uma vivência pessoal em composição, Emanno acabou acessando algo coletivo: a sensação de reconhecimento.

Essa música foi baseada em uma história real que aconteceu comigo. Com certeza também aconteceu com outras pessoas e isso gerou a conexão”, explica.

A trajetória da faixa ganhou ainda mais simbolismo com a presença de Pinguim Ruas no show de lançamento, unindo gerações dentro do rock brasileiro.

Foi uma colaboração bem legal, onde uniu a experiência de uma lenda do rock com a criatividade de uma jovem promessa”, afirma o artista.

Agora, Emanno vive um novo capítulo com o lançamento de “Amor e Rock n’ Roll”, faixa que chega cercada de expectativa e simboliza um avanço técnico, sonoro e emocional dentro de sua discografia.

Segundo ele, a nova música representa o início de um ciclo mais maduro e mais ambicioso.

A mixagem ficou literalmente de outro nível. A cada música eu procuro melhorar, o meu público merece sempre o melhor. Então acredito que ‘Amor e Rock n’ Roll’ é apenas o início de uma nova fase”, revela.

Diferente da irreverência mais escancarada de trabalhos anteriores, a nova canção traz uma atmosfera mais romântica e poética, mas sem abandonar a pulsação do rock.

A composição de “Amor e Rock n’ Roll” também nasce diretamente da experiência pessoal — algo que parece ser marca estrutural da obra de Emanno. A inspiração veio de uma combinação curiosa entre lembranças literárias e uma noite emocionalmente significativa.

Estava lendo uns poemas antigos e tinha acabado de ter uma noite muito boa com a minha ex-namorada em um motoclube. Então veio a inspiração para escrever a letra. Misturei o sentimento que estava sentindo no momento com a magia dos poemas que havia escrito no passado”, conta.

A faixa, portanto, não é apenas uma música de amor: é uma canção atravessada por memória, desejo, intensidade e elaboração emocional. Para o artista, vida afetiva e criação musical caminham lado a lado.

Influencia muito, afinal canção é puro sentimento. No momento em que escrevi essa composição tive essa explosão de inspiração”, diz.

Ao revelar esse processo, Emanno reforça a dimensão visceral do seu trabalho — um rock que não teme a entrega sentimental.

Outro elemento que dá robustez a esse novo momento é a parceria com o selo Midas Music, além do trabalho com nomes reconhecidos da produção musical, como Fernando Prado, Sérgio Fouad e Rick Bonadio.

A aproximação com esse universo surgiu de forma natural, a partir de sua trajetória como um dos alunos fundadores da Midas Academy.

Eu sou um dos alunos fundadores da Midas Academy. Quando recebi a proposta de gravar no estúdio que Charlie Brown Jr., NX Zero e Titãs gravaram, a resposta não poderia ser outra”, afirma.

Mais do que peso simbólico, a experiência trouxe aprendizado técnico e confiança artística.

Curti bastante as orientações que recebi do Fernando Prado e a experiência do Sérgio Fouad, que acompanha os Titãs há anos e me deu um baita suporte na gravação”, destaca.

O resultado, segundo ele, é uma música que carrega movimento, energia e sensação de liberdade.

A proposta do som é trazer essa energia da aceleração de uma moto ou carro e, ao mesmo tempo, tranquilizar os batimentos do coração”, resume.

Ao falar sobre futuro e legado, Emanno ROCKBRABO não parece interessado em rótulos fechados. Seu objetivo é fazer um som capaz de dialogar com diferentes públicos, mantendo ao mesmo tempo sua origem, sua linguagem e sua verdade.

Eu quero fazer meu som e que esse som equalize as pessoas, independente se for da nova geração ou da antiga”, afirma.

Ainda assim, ele reconhece a potência de representar um recorte muito específico: o de um jovem artista de Guarulhos tentando ocupar espaço dentro do rock nacional sem abrir mão da própria vivência.

Como eu sou um jovem guarulhense, acredito que quem também tem essa faixa etária e mora aqui na minha cidade vai se identificar com a minha música. Porém, o meu som fura bolhas e atinge variados públicos”, ressalta.

Essa visão aponta para algo importante: a construção de uma cena contemporânea que parte do território local, mas não se limita a ele.

Essa relação com a cena local ganhou um novo capítulo com o convite feito pelo empresário, comunicador e palestrante Fabrício Ravelli para que Emanno assumisse a coordenação da unidade de Associação Consciência Cultural em Guarulhos.

Para o artista, a função representa mais do que um cargo: é a possibilidade de ajudar a movimentar a cadeia cultural independente da cidade e da região.

Ser coordenador da Associação Consciência Cultural na cidade de Guarulhos é uma honra, e a cena independente pode esperar uma revolução musical. Iremos trazer muitos projetos em parceria com o poder público para a cidade”, afirma.

A declaração revela um Emanno que vai além do palco e passa também a ocupar um espaço de articulação cultural — algo cada vez mais necessário em tempos de reconstrução e fortalecimento da cena independente.

Se “Amor e Rock n’ Roll” inaugura uma nova fase, os próximos movimentos já estão em andamento. Emanno adianta que o planejamento inclui audiovisual, estrada e novas músicas prontas para ganhar o mundo.

Os próximos passos são gravar um clipe bem feito da música ‘Amor e Rock n’ Roll’, fazer shows que conectem o que já foi feito no passado com um novo público que está sendo formado e, após isso, já temos mais músicas engatilhadas para serem lançadas”, revela.

A perspectiva indica que o artista está menos interessado em viver de momentos isolados e mais comprometido em construir uma trajetória contínua, coerente e crescente.


Entre a poesia escrita na juventude, as dores que viraram impulso criativo, a verdade transformada em letra e a vontade de marcar presença no rock brasileiro, Emanno ROCKBRABO vai desenhando seu caminho com autenticidade, entrega e identidade própria. Em um cenário que pede renovação, novos nomes e discursos mais conectados com a realidade das ruas, sua obra aparece como um retrato de vivência, paixão e pertencimento.

Mais do que lançar músicas, Emanno parece decidido a transformar experiência em linguagem — e linguagem em conexão.

E, ao que tudo indica, essa história está apenas começando.

Vocês são incríveis, indestrutíveis e estão em outro nível. Muito amor e rock n’ roll para vocês”, finaliza o artista, em recado direto aos fãs e leitores do Panorama Cultural por Johann Peer.



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Johann Peer é Jornalista responsável pelo número 65.158 MTB/SP e também vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.

16 de março de 2026

 



M.I.R.: quando palavra, movimento e música se encontram em cena

Por Johann Peer | Panorama Cultural


Entre ritmo intuitivo, poesia e experimentação sonora, o artista M.I.R. construiu uma trajetória que atravessa música, teatro e audiovisual. Da infância marcada por instrumentos improvisados até a criação de espetáculos que misturam narrativa, performance e canção, sua obra revela um artista interessado em transformar experiência em linguagem. Em entrevista ao Panorama Cultural, ele reflete sobre suas origens musicais, processos criativos e os caminhos que sua pesquisa artística vem trilhando — agora também nas turnês “Palavra e Movimento” e “Palavra, Movimento e Pulsação”.


A descoberta do ritmo no cotidiano

A relação de M.I.R. com a música nasceu antes mesmo da compreensão formal do que ela era. Na infância, objetos domésticos já se transformavam em instrumentos e o cotidiano era percebido como paisagem sonora.

“Hare krishna! Desde muito cedo eu percebia o mundo de forma sonora”, conta. “Antes mesmo de entender a música como linguagem, eu já buscava ritmo nas coisas mais simples do cotidiano: mesas, xícaras, panelas… qualquer objeto podia virar instrumento.”

Essa experiência inicial moldou sua forma de escutar e de criar. Para ele, o ritmo sempre esteve além dos instrumentos.

“O ritmo não vinha apenas de um instrumento musical. Ele estava no ambiente, nas pessoas, no movimento da vida. Essa relação lúdica e espontânea com o som acabou moldando minha forma de criar até hoje. A música, para mim, nasce da curiosidade e da observação.”


Música como experiência afetiva

Mesmo sem músicos profissionais na família, o ambiente doméstico foi fundamental para a formação da sua sensibilidade artística.

“Apesar de não haver músicos profissionais na família, havia muita música circulando. Canções no rádio, discos tocando, pessoas cantando naturalmente dentro de casa”, lembra.

Esse contato cotidiano fez com que a música surgisse como linguagem emocional antes de qualquer formalidade técnica.

“Ela nunca foi algo distante ou técnico demais, era parte da vida cotidiana. Isso moldou minha sensibilidade artística porque aprendi desde cedo que música é sobretudo comunicação e emoção.”


Identidade construída entre experimentações

Ao longo dos anos, a trajetória de M.I.R. passou por diferentes experimentações e influências musicais.

“No início havia muita experimentação e influência de diferentes estilos — rock, folk, blues, música brasileira”, explica.

Com o tempo, o artista percebeu que sua identidade surgia justamente desse cruzamento de referências.

“Hoje eu descrevo meu trabalho como uma música de forte narrativa, onde palavra, melodia e atmosfera caminham juntas. É um território que mistura canção, reflexão e experiência sensorial.”


Aprendizados de banda e maturidade artística

Um momento importante desse processo foi sua participação na banda Jasmins do Paraíso, experiência que contribuiu para seu amadurecimento musical.

“A experiência com os Jasmins do Paraíso foi muito importante para minha formação artística”, afirma. “Foi um período de aprendizado coletivo, de entender o funcionamento de uma banda, de dividir palco e criação com outras pessoas.”


A convivência musical também trouxe lições que permanecem presentes em seus projetos atuais.

“Essa vivência me ensinou muito sobre dinâmica musical, escuta entre os músicos e construção de identidade artística em grupo.”


O silêncio e as atmosferas de “Sonido 23”

Já em carreira solo, M.I.R. decidiu explorar uma abordagem diferente com o álbum instrumental “Sonido 23”, uma obra que aposta na experiência sensorial da música sem palavras.

“‘Sonido 23’ nasceu de uma necessidade de explorar o som de forma mais abstrata, sem a condução da palavra”, explica.


A proposta era permitir que as emoções emergissem diretamente da sonoridade.

“Eu queria investigar como a música poderia comunicar sensações, atmosferas e estados emocionais apenas através das texturas sonoras. Foi um exercício de escuta profunda.”


O processo também trouxe desafios criativos.

“O maior desafio foi abandonar a segurança da palavra. Quando não há letra, cada detalhe sonoro ganha mais peso. Mas isso abre um campo enorme de possibilidades.”


Canção e reflexão em “Presentes Inigualáveis”

Em 2024, o artista apresentou o EP “Presentes Inigualáveis”, trabalho que marca uma nova etapa de maturidade criativa.

“Esse EP representa um ponto de maturidade na minha trajetória”, afirma. “Ele reúne elementos que já vinham aparecendo no meu trabalho — a força da canção, a dimensão poética e a busca por uma identidade sonora própria.”

As composições também refletem uma abordagem mais consciente sobre o que deseja comunicar artisticamente.

]“As canções trazem reflexões sobre a vida, os encontros humanos e a percepção de que existem presentes que não são materiais, mas experiências que transformam a nossa existência.”


Música para cinema e teatro

A atuação de M.I.R. também se estende ao audiovisual, onde suas composições participam de trilhas sonoras.

“Compor para o cinema é muito interessante porque a música passa a dialogar diretamente com a imagem e com a narrativa do filme”, explica.


Segundo ele, o processo exige outra escuta criativa.

“No audiovisual a música precisa servir à história que está sendo contada. Isso exige sensibilidade para entender o ritmo da cena, a emoção do momento e até o silêncio necessário.”

No teatro, um dos projetos mais pessoais foi o musical “A Trilogia das Gurias”, inspirado em suas três filhas — Dominique, Isadora e Valentina.

“A obra nasceu de um desejo muito pessoal de transformar experiências da minha própria vida em arte”, conta.


O espetáculo mistura memória, narrativa e música.

“O aspecto autobiográfico aparece como ponto de partida, mas a ideia é que cada pessoa também se reconheça nessas histórias.”


A experiência do palco

Em março, M.I.R. inicia a turnê nacional “Palavra e Movimento”, com estreia em Recife.

“É um espetáculo que nasce da força da canção e da presença no palco”, explica. “É um formato muito direto, onde voz, violão e narrativa conduzem a experiência.”


Segundo ele, o público pode esperar um encontro mais próximo com a música.

“A ideia é criar um espaço de encontro verdadeiro entre artista e plateia.”

Paralelamente, ele também apresenta a turnê “Palavra, Movimento e Pulsação”, em formato banda, percorrendo cidades do Rio Grande do Sul.

“O formato solo é mais intimista e focado na narrativa da canção. Já o espetáculo com banda amplia a dimensão sonora e energética das músicas”, afirma.


Corpo, palavra e som

No centro da pesquisa artística de M.I.R. está a ideia de que a música ultrapassa o campo sonoro.

“Para mim, a música nunca foi apenas som. Ela envolve presença, gesto e intenção”, explica.

Essa visão se manifesta especialmente na performance ao vivo.

“O corpo participa do processo criativo tanto quanto a palavra e a melodia. No palco, a performance acaba sendo uma extensão da própria canção.”


Para ele, a performance é também uma dimensão essencial da música contemporânea.

“Ela transforma a música em experiência viva. Quando uma canção é apresentada ao vivo, ela ganha novas camadas de interpretação, emoção e comunicação com o público.”


Arte híbrida e experiência sensorial

Ao observar o cenário cultural atual, o artista vê na mistura de linguagens um caminho fértil para a criação.

“A arte contemporânea tem se tornado cada vez mais interdisciplinar”, afirma. “Minha pesquisa artística caminha justamente nesse sentido: explorar o encontro entre música, narrativa, imagem e performance.”


No fim das contas, porém, o que ele busca é algo simples — e profundo.

“Espero que as pessoas saiam de um espetáculo meu com a sensação de terem vivido uma experiência verdadeira”, conclui.

“Se a música conseguir provocar reflexão, emoção ou simplesmente um momento de conexão consigo mesmo e com o mundo ao redor, então o encontro já valeu a pena. Hare krishna.”


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Johann Peer é Jornalista responsável sob n°65.158 MTB/SP e também vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.


18 de fevereiro de 2026

Entrevista com D.O.S.




A lendária banda de Trashcore paulista D.O.S. – Deformação da Sociedade e Bandas Metallstein e JC Pactus se apresentam no icônico WOODSTOCK ROCK STORE

Dia 21/02 A partir das 15:00

WOODSTOCK ROCK STORE

Endereço: Rua Dr. Falcão Filho 155, São Paulo, SP - CEP: 01007-010

Telefone: (11) 3101-7297

 

D.O.S. – Deformação da Sociedade: quando o crossover vira denúncia e resistência

Do caos urbano ao grito coletivo: mais de três décadas transformando indignação em música extrema.

Nascida entre becos violentos, silêncios cúmplices e estruturas sociais em colapso, a D.O.S. (Deformação da Sociedade) não é apenas uma banda — é um manifesto sonoro. Forjada no final dos anos 80 e início dos 90, a trajetória do grupo atravessa décadas de mudanças políticas, culturais e musicais sem jamais abandonar sua essência: confrontar a opressão, denunciar injustiças e amplificar vozes silenciadas através de um crossover brutal e consciente.

Em 2025, a D.O.S. retorna com formação renovada e a mesma fúria que a fez nascer. Ame ou odeie: eles não vão se calar.

A gênese da D.O.S. está diretamente ligada a uma experiência traumática vivida por seu fundador, Edson Khaos. Após deixar sua antiga banda — onde atuava como baixista — Edson testemunhou uma agressão brutal contra uma mulher nas ruas. Pouco depois, ao assistir ao filme O Justiceiro, encontrou na música o canal para transformar revolta em ação. Ali surgia a essência da D.O.S.: uma banda criada para denunciar as mazelas sociais e enfrentar um sistema corrompido.

A formação original contou com Mauro (vocal), Edson Khaos (baixo), Claudomiro e André (guitarras) e Val (bateria). Com o tempo, Khaos assume os vocais, André migra para o baixo, e a sonoridade passa a incorporar influências do crossover hardcore finlandês, somadas à agressividade do thrash americano e alemão.

Os anos 90 foram marcados por pausas e reformulações. Em 1999, sob nova liderança com Rodrigo Artourios e Juliana, a banda retorna mergulhando em um hardcore mais cru e direto, consolidando presença no underground paulista, com apresentações no Hangar 110 e destaque na revista Metal HeaD.

Em 2011, Edson Khaos reassume o comando, motivado pela constatação de que as injustiças que o impulsionaram nos anos 80 permaneciam intactas. Com Diego (guitarra), Danielson (baixo) e Wander (bateria), lançam em 2012 o álbum Deformação da Sociedade e, em 2013, o EP Prenúncio do Caos. Em 2014, dividem palco com a lendária Salário Mínimo.

A banda passa por diversas formações, incluindo músicos como Dogma (ex-Soldado Nuclear), Thiago (ex-Extreme Hate) e o retorno de Val à bateria. O trio Edson, Claudomiro e Val mantém vivo o som combativo por um período importante.

Em 2017, durante o show “Calvário”, Daniel ingressa na banda, trazendo sua noiva Vania para o baixo. A D.O.S. participa de eventos como Crash Church, Independência Fest Rock e Festival Fim do Mundo, além de integrar a coletânea Cristo Suburbano Vol. 5. Nesse ciclo, lançam o EP Feminicídio, reforçando o engajamento com pautas urgentes.

Após novo hiato, o grupo ressurge em 2022 com o EP Acertos de Conta, ao lado de Walter (guitarra), Wagner (baixo) e Léo (bateria), todos ex-Porão 9. Em 2023, seguem ativos com Daniel, Josias e Deio, participando de eventos como Refúgio Moriah e Refúgio do Rock. Dessa fase nasce o projeto paralelo Couraça da Justiça.

Agora, em 2025, a D.O.S. retorna mais afiada do que nunca:

Edson Khaos (vocal), Diego (guitarra), Daniel (baixo) e Samuel Silas (bateria) formam a nova linha de frente.

Análise / Crítica técnica

Musicalmente, a D.O.S. constrói seu discurso através de riffs cortantes, bateria seca e vocais rasgados que dialogam com o hardcore, thrash e punk crossover. Não há espaço para ornamentos: o som é direto, agressivo e politizado.

A faixa “Happy Die” tornou-se um verdadeiro hino da banda, figurando em coletâneas como Cooperativa Punk e Cristo Suburbano, extrapolando seus próprios lançamentos.

As letras abordam temas como: 

• Violência contra a mulher

• Opressão sistêmica

• Colapso ético das estruturas de poder

 

A discografia distribuída pelo selo Rádio Word — presente em mais de 100 plataformas digitais — inclui:

Feminicídio (EP)

Feminicídio II (EP)

Prenúncio do Caos (EP)

Denunciando as Mazelas da Sociedade (CD)


Cada lançamento reafirma o compromisso da banda com uma arte que incomoda, provoca e exige posicionamento. 

Entrevistas / Contexto

Para Edson Khaos, a D.O.S. sempre foi mais do que música:

“As injustiças continuam as mesmas. O que mudou foi a forma como tentam silenciar quem denuncia. A banda existe porque o sistema ainda falha com os mais vulneráveis.”

Em tempos de censura velada, conformismo artístico e bandas neutralizadas pelo mercado, a D.O.S. se mantém como uma trincheira cultural.

Eles não fazem trilha sonora para distração. Fazem para despertar.

A D.O.S. não busca consenso. Busca confronto.

Com mais de três décadas de história, múltiplas formações e uma obra profundamente engajada, o grupo segue como uma das vozes mais coerentes do underground brasileiro. Seu crossover não é apenas estilístico — é político, social e humano.

Em 2025, enquanto muitos se calam, a D.O.S. grita.

 

Ame ou odeie.

O D.O.S. é o terror do Papa Leão XIV.

E eles não vão parar.

 


14 de fevereiro de 2026

Entrevista com Distraught

 


Distraught: mais de três décadas transformando thrash metal em denúncia social

Da cena underground de Porto Alegre aos palcos internacionais, banda gaúcha consolida trajetória marcada por atitude, crítica e resistência sonora

 

Formada no início dos anos 1990, em Porto Alegre (RS), a Distraught construiu uma carreira sólida dentro do thrash metal brasileiro ao longo de mais de três décadas. Nascida em meio ao efervescente circuito underground, a banda transformou influências clássicas do gênero em uma identidade própria, marcada por letras politizadas, energia de palco e reconhecimento internacional. Entre discos, turnês e momentos históricos — como dividir o palco com o Megadeth —, o grupo segue ativo, usando a música como ferramenta de protesto em um mundo atravessado por crises sociais, ambientais e humanas.

 

Raízes no underground e paixão pelo som pesado

 

A Distraught surgiu em 1990, quando a cena do metal extremo ainda se articulava por meio de fanzines xerocados, demos enviadas pelo correio e divulgação artesanal de shows. Segundo o guitarrista André, o início foi despretensioso: jovens músicos movidos pela paixão pelo som pesado e pelo desejo de se divertir.

 

As primeiras referências vieram de bandas como Suicidal Tendencies e S.O.D., mas logo o thrash metal se tornou a linguagem definitiva do grupo. Slayer, Exodus, Kreator, Metallica e Sepultura ajudaram a moldar o caminho inicial, sem apagar a busca por uma identidade própria. Com o tempo, a banda passou a desenvolver sua própria “fórmula” de composição, consolidando um som agressivo, técnico e autoral.

 

Discos, estrada e afirmação artística

O primeiro álbum cheio, Nervous System (1998), marcou o ingresso definitivo da Distraught no circuito nacional de shows. Lançado de forma totalmente independente, com tiragem de 1.500 cópias, o disco foi amplamente enviado pelo correio para rádios e veículos internacionais, ampliando o alcance da banda além do Brasil.

 

Antes disso, a participação em um split CD com Scars e Zero Vision, pelo selo Encore Records, e a presença em coletâneas da revista Planet Metal ajudaram a fortalecer o nome do grupo no underground. Já o registro ao vivo Live Black Jack, gravado de maneira quase acidental, evidenciou a força da banda nos palcos — característica frequentemente elogiada pela crítica especializada.

 

A virada de chave veio com   Behind the Veil, álbum que levou a Distraught a uma turnê de um mês pelo Brasil em 2005. Para André, foi nesse momento que a banda encontrou definitivamente sua identidade sonora. O reconhecimento veio também da imprensa: a revista Roadie Crew apontou o grupo como uma das grandes revelações do thrash metal brasileiro da década.

 

Metal como protesto e consciência social

 

Mais do que velocidade e peso, a Distraught sempre tratou o thrash como instrumento de crítica. Desde o início, as letras abordam temas como corrupção, violência urbana, alienação social e sofrimento psíquico. Para o vocalista Ricardo, essas narrativas nascem da vida real e refletem um sistema que normaliza desigualdade e repressão.

 

Essa postura fica evidente em Locked Forever, álbum que dialoga diretamente com a história dos manicômios brasileiros e com o livro Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex. O trabalho denuncia décadas de exclusão e desumanização na psiquiatria nacional, conectando música extrema a memória social.

 

A expansão internacional também ampliou a percepção da banda sobre sua própria obra. Com o lançamento de Unnatural Display of Art no Japão, pelo selo Spiritual Beast, e turnês pela Argentina, a Distraught passou a dialogar com públicos de diferentes culturas. Segundo Ricardo, ver pessoas de outros países reagindo às mesmas músicas reforçou a universalidade das emoções transmitidas pelo som.

 

Momentos emblemáticos, como dividir o palco com o Megadeth em Porto Alegre, durante a turnê de 20 anos de Rust in Peace, marcaram a trajetória do grupo. O elogio de Dave Mustaine nos bastidores funcionou como validação artística e fortaleceu a autoconfiança da banda.

 

Visualmente, a identidade da Distraught também se consolidou com capas assinadas por Marcelo Vasco, construídas a partir dos conceitos líricos de cada álbum. Paralelamente, o grupo se permite revisitar clássicos, como Helter Skelter (Beatles) e músicas do Motörhead, reinterpretando essas obras sob o espírito rebelde do metal.

 

Nos trabalhos mais recentes, temas como depressão e saúde mental ganham destaque, como em Crucified Life, refletindo o impacto das pressões contemporâneas e da hiperestimulação provocada pelas redes sociais.

 

O EP conceitual inVolution aprofunda essa abordagem ao relacionar cada faixa simbolicamente aos cinco elementos da natureza, inspirado por tragédias ambientais como as enchentes no Rio Grande do Sul e as queimadas no Pantanal. A obra propõe uma leitura crítica da regressão humana diante do colapso ambiental.

 

A bandeira do  Thrash metal como resistência permanente

 

Após mais de 30 anos de estrada, a Distraught segue criativamente inquieta e politicamente ativa. Para André, a motivação continua sendo apontar o que está errado e provocar reflexão. Ricardo resume o espírito da banda: fazer thrash metal é, acima de tudo, protesto.

 

Em um cenário de crise moral, ambiental e social, o grupo reafirma seu compromisso com o peso, a pressão e a denúncia — transformando riffs acelerados em consciência crítica.

 

A discografia da Distraught está disponível nas principais plataformas digitais, e novidades sobre lançamentos e shows podem ser acompanhadas pelas redes oficiais da banda.

 

Matéria exclusiva com André (Guitarra) e Ricardo (Vocalista),  da lendária  banda de Trash Distraught para Johann Peer, jornalista responsável sob n°65.158 MTB/SP com a colaboração de Johnny Z. Johann também é vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.


28 de janeiro de 2026

Entrevista Drenna Rock Para o blog ROCK BRASILEIRO UNDERGROUND




1) Vocês se lembram quando e como foi o primeiro contato com a música de cada um, especialmente com o velho e bom Rock and Roll? 

A música chegou antes de virar escolha, ela simplesmente estava lá. Minha mãe sempre ouvia Michael Jackson e foi assim que nasceu meu interesse pela guitarra. Um dia eu vi um vídeo em que o Slash fazia uma participação especial no show do Michael Jackson e me apaixonei pela forma que ele tocava guitarra, naquele momento percebi que era isso que eu queria pra minha vida.


2) Na  iniciação com as artes, principalmente a música, vocês  contaram com apoio da família e amigos?

Cada integrante da banda tem uma história diferente em relação a isso. No meu caso, sempre tive apoio e incentivo. Sabemos que seguir uma carreira artística no Brasil exige muita insistência e, para todos nós da banda, o apoio da família foi se fortalecendo com o tempo. Ele se tornou mais sólido quando a música deixou de ser apenas um “sonho” e passou a ser trabalho, estrada e responsabilidade.


3) Como surgiu a banda Drenna Rock? E quais as  principais influências e referências musicais de cada um de vocês e que conjuminaram  dentro da proposta e formação da banda?

A Drenna nasceu da necessidade de dizer algo próprio. De transformar vivência em som. As influências passam pelo Rock nacional e internacional, grunge, alternativo, punk, música urbana. Cada integrante carrega uma bagagem diferente, e é justamente esse encontro de referências que molda o som da banda: Rock com identidade brasileira, contemporâneo e autoral.


4) Quando, onde, e como  foi  a  primeira apresentação da banda Drenna e como foi a receptividade junto ao público com esta única formação?

A primeira apresentação aconteceu de forma crua, sem grandes produções. Foi em um evento de bandas underground no subúrbio do Rio de Janeiro. Eu tinha algumas músicas guardadas na gaveta e, naquele momento, ainda não existia uma banda autoral formada. Quando soube do festival, resolvi me inscrever mesmo sem banda. Juntei alguns amigos, mostrei as músicas e fizemos um ensaio.

Foi ali que percebemos que a banda funcionava ao vivo. A receptividade foi intensa, o público se conectou rapidamente com a proposta e com as letras e por conta disso resolvemos continuar.





5) A banda Drenna ROCK tem feito um grande número de apresentações pelo Brasil em grandes eventos e festivais como o ROCK IN RIO.Qual foi a sensação de terem se apresentado para um grande público e um evento deste porte? E qual expectativa para este ano, já que tem ROCK IN RIO novamente?

Tocar em um festival como o Rock in Rio é uma experiência surreal. Ao mesmo tempo em que você sente o peso da história e a grandiosidade do evento, também vem uma responsabilidade enorme de estar à altura daquele palco. É a confirmação de muitos anos de trabalho, insistência e escolhas feitas ao longo do caminho.

Estar em grandes festivais é sempre muito especial porque não é apenas sobre tocar para quem já acompanha a banda e conhece o nosso som, mas também sobre alcançar um público completamente novo, que muitas vezes tem ali o primeiro contato com a nossa música, ao vivo. É uma oportunidade única de conexão, de ampliar horizontes e de mostrar quem somos em poucos minutos, mas com muita intensidade.

Para este ano, a expectativa é seguir crescendo, ocupando espaços cada vez maiores e levando o nosso Rock autoral para ainda mais pessoas. Se o Rock in Rio voltar a acontecer na nossa trajetória, queremos subir naquele palco ainda mais preparados, com mais estrada, mais identidade e a mesma entrega de sempre.


6) A banda já lançou quais e quantos álbuns? Qual foi o lançamento mais recente e há previsão de um novo trabalho em breve?

Temos dois álbuns e alguns singles lançados. O primeiro foi Desconectar e o segundo, Cisne Negro, que é também o nosso trabalho mais recente em formato de álbum e representa uma fase importante de amadurecimento artístico da banda, tanto musicalmente quanto conceitualmente.

Depois desse lançamento, seguimos apresentando novos caminhos com os singles “Aliens” e “Só o Tempo Irá Dizer”, ambos acompanhados de videoclipes, reforçando a nossa preocupação em unir música e linguagem visual.

No momento, estamos trabalhando em dois novos singles e também na produção de um novo álbum, com lançamento previsto ainda para este ano. A ideia é aprofundar ainda mais a nossa identidade e explorar novas sonoridades, sem perder a essência do Rock que nos trouxe até aqui.


7) A Drenna Rock tem planos de fazer parcerias com Artistas e Bandas do cenário independente?Se sim,  ou não e porque?

Sim, temos planos e acreditamos muito em parcerias. Já vivenciamos isso no álbum Cisne Negro, na música “A Busca”, em parceria com Kauan Calazans. Essas trocas são importantes não só artisticamente, mas também para ampliar diálogos e conexões.

Novas parcerias já estão a caminho. A cena independente se fortalece na troca, e o Rock cresce quando caminha junto, somando vozes, ideias e experiências.


8) Como vocês enxergam o Rock brasileiro das décadas de 80, 90 e início dos anos 2000, em comparação com o cenário atual, em que outros gêneros ganharam protagonismo? O que falta para o Rock voltar a ocupar o espaço e o protagonismo  de antes? 

O Rock das décadas de 80, 90 e início dos anos 2000 contou com muito mais espaço na mídia e nas grandes plataformas de divulgação. Hoje, o cenário é diferente: outros gêneros ganharam protagonismo, mas o Rock não desapareceu. Ele segue vivo, talvez ainda mais diverso, plural e livre, justamente por estar fora do mainstream.

Para voltar a ocupar um lugar de maior destaque, o Rock não precisa repetir fórmulas do passado. Precisa dialogar com o presente, refletir as questões do seu tempo, ocupar novos espaços e se comunicar com novas gerações, sem perder a sua essência.

É exatamente isso que buscamos fazer com a Drenna: construir pontes entre tradição e contemporaneidade, ocupar esses espaços e manter o rock em constante movimento.





9) O Rock nasceu de raízes negras e femininas com Sister Rosetta Tharpe, mas historicamente sempre foi associado ao masculino e ao “universo branco”. Na opinião de cada um, houve avanços nessa questão? Como quebrar paradigmas ainda existentes? E qual o papel das mulheres e das comunidades LGBTQIA+ no Rock atual?

Houve avanços, mas ainda há muito a caminhar. O Rock nasceu negro, feminino e rebelde. Resgatar essa origem é quebrar paradigmas. Mulheres e pessoas LGBTQIA+ têm papel fundamental no Rock atual: trazendo novas narrativas, novos corpos e novas estéticas. O palco precisa refletir o mundo atual e real.


10) Em termos de cena independente e autoral, quais são as principais diferenças e desafios do Brasil em relação à Europa e aos Estados Unidos? O que ainda precisa melhorar para fortalecer o mercado nacional? 

No Brasil, o desafio é estrutural: menos investimento, menos políticas culturais contínuas e menos espaço na mídia. Em compensação, a criatividade é absurda. Para fortalecer o mercado nacional, precisamos de mais circulação, apoio à cena local e valorização do artista autoral.

Nossa cena é muito rica.


11) Para quem ainda não conhecem o trabalho da banda, definam a Drenna Rock:

A Drenna é rock brasileiro autoral, visceral, urbano e contemporâneo. As letras nascem da nossa vivência, do que pensamos, observamos e sentimos no dia a dia. Falamos sobre inquietações, conflitos internos, relações humanas e o mundo ao nosso redor, sempre de forma direta e honesta. No palco, isso se transforma em entrega, intensidade e conexão.


12) Para finalizar: qual mensagem vocês gostariam de deixar para seus fãs, seguidores e leitores do Rock Brasileiro Underground?

Para quem vive o rock: continuem. Criem, ocupem espaços, formem redes, não esperem permissão. O rock sempre foi resistência, e enquanto houver gente sentindo, pensando e questionando, ele vai continuar vivo.


Por Johann Peer Jornalista responsávelsob o n°65.158 MTB/SP e  também, vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.